Segunda-feira, Agosto 14, 2006
EFEITO BUSH
VERGONHA
Abraçada à mãe, Sarah morreu horas antes do fim da guerra em Beirute.
BEIRUTE, 14 ago (AFP) - Sarah, de 10 anos, jamais saberá quem venceu a guerra, se Israel ou o Hezbollah, pois morreu abraçada a sua mãe depois que as bombas israelenses as sepultaram sob os escombros do prédio onde se refugiaram, em um subúrbio ao sul de Beirute.
Os restos mortais das vítimas das últimas horas de batalha jaziam nesta segunda-feira no necrotério da capital do Líbano.
"Seu rosto estava ensangüentado, mas intacto. Seu corpo, no entanto, está destroçado, e suas pernas não passam de uma massa de carne. Deixei a fita vermelha que prendia seus cabelos", conta Mahmud Mekdad, um dos funcionários do necrotério.
"Sua mãe, Asmahane, está no caixão ao lado do dela. Quando foram retiradas dos destroços, a menina abraçava a mãe que tentou visivelmente protegê-la. As equipes de socorro tiveram que afastá-las", acrescentou.
"Os corpos foram trazidos para cá na noite de domingo e até agora ninguém veio reclamá-los. Talvez não haja sobreviventes nesta família", informou o médico legista Hussein Medkad, que passou os atestados de óbitos na ausência de familiares.
Sarah e sua mãe morreram soterradas quando aviões israelenses bombardearam na tarde de domingo um prédio do bairro Rueiss, periferia de Beirute.
"Não há dúvidas de que existem outras famílias sob os escombros. É pouco provável que sejam encontrados sobreviventes. Vamos usar cães adestrados para tentar localizar os corpos", disse um socorrista no local da tragédia, onde já foram retirados dez corpos. Inaam Kaacheemelli e sua filha Mariam observam as idas e vindas das escavadeiras que erguem blocos de concreto armado.
Mariam, de 10 anos, vive a 200 metros dos imóveis destruídos. "Ontem, ao meio-dia, eu estava brincando com Sarah e o irmão dela, Ibrahim. Onde eles estão?", pergunta a menina.
Sua mãe implora aos jornalistas: "Por favor, não mostrem para minha filha a foto do corpo de Sarah. Ela ainda não sabe", explicou.
Mais de mil civis morreram em 33 dias de bombardeios contra o Líbano. Segundo dados das Nações Unidas, quase um terço das vítimas é de crianças.
Quinta-feira, Julho 29, 2004
E ai galera... logo esse blogger será ativado novamente.
Só falta mais um pouco de tempo
Sexta-feira, Julho 11, 2003
A indiferença é o alimento preferido dos monstros que nos assolam, comprometendo nosso futuro com a negligência do presente e, até o passado, cuja memória sucumbe na distorção dos mais caros e nobres valores humanos. A indiferença como opção de defesa contra as indignidades é na realidade, a melhor defesa dos indignos.
Segunda-feira, Junho 09, 2003
BUSH FILHO DA PUTA
Sábado, Junho 07, 2003
ACORDO DE ALCÂNTARA DEVE SER RETIRADO DO CONGRESSO
O Governo pretende retirar do Congresso Nacional o Acordo que concede aos Estados Unidos o direito de uso da base militar aeroespacial de Alcântara, no Maranhão. O ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, deu esta informação à Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional, em audiência pública realizada ontem.
Os Ministérios da Defesa, da Ciência e Tecnologia e das Relações Exteriores já elaboraram uma Exposição de Motivos para justificar a retirada, que está sendo analisada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
INFORMAÇÕES
Vários deputados comemoram a decisão. Antônio Carlos Pannunzio (PSDB-SP) manifestou apoio, ressaltando que um eventual Acordo deste tipo com os Estados Unidos Brasil deveria ser semelhante aos firmados com aquele país com a Rússia, a China, e a Ucrânia. Para Pannunzio, o Acordo precisa ser alterado para beneficiar o Brasil. "Por exemplo, precisamos saber que tipo de carga é enviada pelo satélite lançado da base, se existe radioatividade, se existe componente passível de trazer prejuízos ao ambiente ou à saúde humana. Informações como estas são necessárias para resguardar interesse nacional", disse.
SOBERANIA
O deputado Ary Vanazzi (PT-RS), um dos autores da indicação encaminhada na semana passada ao Governo para retirar o Acordo da pauta, disse que o assunto precisa ser muito mais discutido, do ponto de vista da soberania nacional, já que os norte-americanos tem o hábito de agir de forma unilateral.
"A iniciativa do governo norte-americano de invadir o Iraque, desrespeitando os organismos internacionais, e a própria comunidade internacional, mostra ser urgente retirar o Acordo. A independência do Brasil é fundamental. A gente precisa pensar, projetar a nossa visão das pesquisas espaciais, e administrar a base de Alcântara a partir daí. Não pode haver esse Acordo, não podemos entregar a Base de Alcântara ao governo americano, em função do seu autoritarismo".
A indicação foi assinada também pelos deputados Vignatti (PT-SC) e Francisca Trindade (PT-PI). Para Vanazzi, a indicação veio no momento certo. Hoje, Vanazzi está no Maranhão para discutir a Base de Alcântara. Uma das principais preocupações é com a situação das comunidades remanescentes de quilombos, gente que morava na região antes da construção da Base.
BRASIL ACIMA DE TUDO
Sábado, Maio 17, 2003
TERRA DA LIBERDADE, LAR DO BRAVO!
Texto e arte de J. J. Marreiro
Dia 17 de março de 2003. Cenário: a Casa Branca. Mais precisamente o Salão de Reuniões. Aqui, várias vezes, foram tomadas decisões que orientaram o rumo da América e do mundo. Além do próprio presidente e seu vice, estão presentes os conselheiros militares, e os diretores da CIA e da Shield.
Com um ar de tranqüilidade que lhe é peculiar, o presidente George W. Bush dirige a palavra ao coronel Nick Fury:
- Peça a ele para entrar, Fury.
Espalhando fumaça pela sala, o diretor da Shield caminha até a porta, dá uma ordem a um soldado que aguardava do lado de fora e, em menos de um minuto, eles ouvem se aproximar os passos mais firmes e decididos que já puderam perceber. O homem envolto num uniforme azul estrelado evoca respeito de todos os olhares, o escudo de metal reluzente alçado em suas costas não é menos imponente.
- Senhor presidente! - Como um soldado pronto a acatar quaisquer ordens, ele assume a posição de sentido ante a mesa de reuniões onde Fury torna a se acomodar, junto dos demais líderes.
- Você está a par dos últimos acontecimentos?
- Se está se referindo às recentes hostilidades com relação ao Oriente Médio, sim.
- Nós temos provas de que ele está ocultando dezenas de fábricas de armas de destruição em massa.
- São as mesmas provas que o senhor apresentou ao Congresso?
- Ham-Ham! - Fury pigarreia alto ao fundo, alertando o homem por trás da máscara de que está entrando em terreno perigoso.
- Ora, hã... Não, não, não, aquilo foi um pequeno lapso de troca de documentos. - Bush tenta dissimular e continua - Temos outras fontes. Fotos de satélites e informes de um grupo avançado da Shield.
Os gigantescos olhos azuis dirigem-se lentamente para Fury, perscrutando-lhe os gestos e lendo as mensagens subliminares de cada poro de seu rosto. Uma gota de suor próxima ao tapa-olho confirma o que ele já suspeitava. "Eles estão procurando uma desculpa".
- Aquelas pessoas, você sabe, mulheres, crianças... gente idosa, ignorante. Todos estão seduzidos pelo discurso dele. Aquilo é uma ditadura das mais cruéis. Nós estamos analisando uma intervenção para libertar aquelas pessoas. - Enquanto fala, Bush levanta-se e anda pela sala, aproximando-se do Capitão.
- O que pensa o resto do mundo? - Sua voz, mesmo em tom ameno, soa firme como um trovão.
- Estão cegos! A Inglaterra está conosco nesta empreitada, mas o restante da Europa e dos outros continentes não se importa com aquelas pobres pessoas.
- O que diz a ONU?
- Ora, filho! Você sabe que a ONU somos nós.
- O vocês que querem de mim?
- Nós precisamos que seja nosso símbolo! Queremos que lute mais uma vez em favor da liberdade e leve uma imagem de otimismo e segurança para o front! Quando entrarmos em Bagdá, quero que esteja à frente de nossas tropas alardeando para o mundo como a América lida com ditaduras.
Fury apaga o charuto na mesa, mas ninguém percebe. A tensão naquela sala seria capaz de provocar a fissão de um átomo. Ele sabe quem é o homem por trás da máscara, sabe como ele pensa, sabe quais suas prioridades. De fato, desde o início foi contra trazê-lo aqui, mas este novo presidente é menos flexível que o pai, e certamente menos inteligente, se dirige a palavra ao Capitão América desta forma.
Mas, o que ele pode fazer?! Há forças maiores por trás disso tudo, a indústria armamentista, os figurões do petróleo, o consenso de Washington... e não podemos esquecer a "conspiração". Ele quer a guerra, mas não só para entrar nos livros de história. Ele a quer para pacificar a economia da América, criar uma cortina de fumaça sobre todos os problemas que permeiam sua administração. E ele é mais ingênuo do que pensa, se acha que o Capitão América não sabe disso.
- O senhor quer que eu conduza suas tropas para a vitória?
- Sim! Quero que faça história mais uma vez!!!
- Sinto muito, senhor presidente, mas minha resposta é não. - Fury ainda se impressiona com a naturalidade como ele faz essas coisas. Deve ser fácil pra um cara que está por aí desde a Segunda Grande Guerra.
- Desculpe. Acho que não ouvi direito. - Cinismo. Talvez fosse a atitude menos recomendada neste momento - Você vai desacatar uma ordem minha?! Devo lembrá-lo para quem você trabalha, rapaz?! - Oh-Oh! Ele agora está cruzando a linha. Fury esfrega a mão lentamente ao longo do rosto. Eu não acredito! Ninguém disse pra ele o que o Capitão fez com o Reagan quando soube do caso "Irã-contras"?
- Senhor presidente, estamos falando de um país que tem suas leis e sua soberania assegurada pela Carta das Nações. Quer gostemos ou não, aquele território é a casa de outras pessoas, não podemos entrar lá e dizer-lhes o que devem fazer. O líder deles é um tipo fanático e uma ameaça ao mundo livre, mas que tipo de homens seremos nós se invadirmos o seu território sob o pretexto de fazer justiça... O petróleo deles não vale a vergonha de uma guerra.
- Você está passando dos limites, rapaz! - Com a voz trêmula de raiva e visivelmente contrariado, o presidente assume uma coloração avermelhada.
- Calma, senhor presidente. - O secretário geral tenta acalmar os ânimos - Capitão, por favor, seja razoável.
- Razoável?! Você achou o Panamá razoável, a Coréia razoável, o Vietnã?!
- Agora, a voz do Capitão passa a ribombar pelo salão oval, atraindo respeito e atenção. - Eu não concordei com nenhuma dessas intervenções. Verifique os arquivos! O Capitão América só participou de batalhas justas! Já vi sangue inocente demais derramado por ódio e ganância!
- Você serve a este País! (gasp!) Você (gasp!) serve a este País! - O presidente se apóia na mesa atrás de si, com a mão sobre o peito. A respiração parece difícil. Os conselheiros se aproximam para auxiliá-lo. O homem vestido com as cores de uma bandeira dá as costas lentamente e dirige-se à porta. O silêncio toma conta do recinto.
- Gostaria de lembrá-lo de mais uma coisa, sr. presidente: É bem verdade que trabalho para vocês, mas, quero que fique claro: antes de tudo, sirvo aos ideais de justiça e liberdade! - Os passos fortes caminham na direção da saída. Uma mão de ferro gira o trinco da porta e lentamente abre passagem. Antes de sair, seus olhos cruzam os olhos de todos dentro daquela sala, parecendo enxergar as almas e os segredos mais profundos de cada um. Parando na face trêmula do presidente: - Sim, senhor presidente, eu sirvo a América... mas, acima de tudo, eu sirvo ao sonho!
A porta se fecha lentamente atrás do gigante azulado. A confusão retorna, todos tentam auxiliar o presidente que, ao que parece, está diante de um ataque cardíaco.
Fury esboça um sorriso por trás da fumaça do charuto que acaba de acender e pensa: "É... Sempre achei tremendamente ridícula e cafona essa roupa dele, mas uma coisa é certa. Por trás dessa breguice toda... tem um cara com cujones! Talvez ainda haja esperança para a América".
20 de março: Estados Unidos e Inglaterra vão a guerra contra o Iraque... sem o Capitão América.
Sexta-feira, Maio 16, 2003
ALCÂNTARA DE PRESENTE
O mais antigo e legítimo princípio do exercício da soberania dos povos é a defesa da integridade do seu território. Princípio que lhe garante ação soberana inquestionável para desenvolvê-lo de maneira sustentável e oferecê-lo às gerações futuras.
O Governo Fernando Henrique Cardoso feriu este princípio ao acatar as inaceitáveis condições impostas pelo governo dos Estados Unidos da América, para utilização da Base de Alcântara, no Maranhão.
O Acordo de Salvaguardas Tecnológicas, para utilização daquela base de lançamentos de foguetes, assinado entre os dois governos em abril de 2000, constitui-se numa peça que envergonha a diplomacia brasileira e um insulto à nossa soberania e inteligência.
É inaceitável para um país soberano, sob qualquer ponto de vista, admitir que dentro da área da Base de Alcântara, a circulação de pessoas e equipamentos seja privativa da autoridade do governo dos Estados Unidos.
A forma do acordo deixa dúvidas e suspeitas sobre as reais motivações geopolíticas e militares, do governo dos Estados Unidos ao exigir autonomia total em nosso território, justamente na entrada da Amazônia.
Além disso, o Acordo coloca em risco as comunidades de remanescentes
de Quilombos que há mais de duzentos anos vivem na região.
E sepulta, sorrateiramente, a possibilidade da Aeronáutica brasileira desenvolver um programa espacial autônomo e soberano.
O Acordo depende agora de aprovação do Congresso Nacional.
Nós, cidadãos e cidadãs atentos(as) aos princípios e a defesa da soberania nacional e conscientes do exercício da soberania popular assegurada pela Constituição da
República, nos manifestamos, exigindo:
1. Que o Congresso Nacional rejeite o malfadado acordo.
2. Que se busque uma solução justa e duradoura para que todos os brasileiros que vivem no município de Alcântara tenham seus direitos assegurados e possam trabalhar e melhorar suas condições de vida.
3. Que seja assegurado o direito de nosso povo à investigação, à pesquisa, ao acesso e desenvolvimento de novas tecnologias pacíficas de exploração espacial.
Estaremos sempre dispostos a lutar contra os que, atendendo a interesses de grupos nacionais e estrangeiros, buscam fragilizar o primado da nossa soberania sobre o território nacional. Lutaremos, sempre e incansavelmente, por um Brasil socialmente justo, soberano e democrático.
ISSO SEM CONTA A VERGONHA DA ALCA
Quarta-feira, Maio 14, 2003
OSAMA VIVE
O atentado de segunda-feira à noite em Ryadh, capital saudita, não podia ter vindo em pior hora para o governo norte-americano. Tendo causado pelo menos 29 mortes e mais de uma centena de feridos, é a pior ação da Al Qaeda desde o 11 de setembro. E, com ele, Osama bin Laden põe George W. Bush num xeque simbólico.
Os números de vítimas foram conflitantes durante toda a terça-feira. O vice-presidente dos EUA, Dick Cheney, chegou a declarar num discurso que eram já 91 os mortos. O governo saudita manteve a conta de 29 mortos e, no fim do dia, os EUA recuaram. Cheney alegou que estava repetindo o que havia lido na imprensa, embora seus assessores não soubessem dizer onde exatamente este número tão elevado teria aparecido inicialmente.
Fosse 91, seria o segundo maior ataque terrorista da Al Qaeda. Mesmo não sendo, deixa o governo Bush numa situação delicadíssima. Em primeiro lugar, porque foi algumas horas antes da chegada do Secretário de Estado Colin Powell à Arábia Saudita. Esperava-se que perante uma visita da terceira maior autoridade política dos EUA, a segurança estaria no ápice. Muito pelo contrário, e mais uma vez bin Laden mostra que consegue se infiltrar nos piores momentos.
Em segundo, porque a visita de Powell marcava o contra-ponto à guerra contra o Iraque. Primeiro bate, depois acaricia. Se feriu o orgulho árabe derrubando Saddam Hussein com facilidade, agora vinha o gesto de boa-vontade: 5.000 militares norte-americanos que viviam em bases no território saudita estavam com a passagem para casa comprada.
Quando bin Laden declarou sua guerra sangrenta aos EUA, essa era sua principal exigência. Que os militares norte-americanos deixassem o sacro-território saudita, onde estão as principais cidades muçulmanas: Meca e Medina.
Após a invasão do Kuwait pelo Iraque, no princípio dos anos 1990, bin Laden ofereceu à Casa Real de Saud proteção de seus guerrilheiros, treinados a ferro e fogo na Guerra do Afeganistão, contra um possível ataque de Saddam. O governo do país árabe preferiu a proteção dos EUA e seus favores, provocando uma crise interna que culminou com bin Laden expulso de seu próprio país: perdeu a cidadania em 1994.
De repente, virou tudo uma questão de honra. Aos EUA, retirar os soldados era curvar-se perante as ameaças de bin Laden. Ao governo saudita, pedir a retirada era reconhecer o poder interno do terrorista milionário. A queda de Saddam, portanto, virou a desculpa perfeita. Já que o risco de invasão não existe mais, o grave foco de tensões poderia ser eliminado. Coisa importantíssima essa viagem de Colin Powell, pois.
E Osama bin Laden arranjou um jeito de acirrar o jogo. Até porque o jogo já é outro desde o 11 de setembro. Ao longo da última década, de um nacionalista radical, ele tornou-se símbolo das violentas frustrações de todo o povo muçulmano. Não se trata mais, como um dia foi, de buscar uma aliança com a realeza saudita na construção de um país profundamente religioso e livre de infiéis. Agora, bin Laden quer poder. Primeiro, poder na Arábia Saudita; depois, poder em todo o mundo muçulmano. Dificilmente terá condições de conquistar tanto. Mas deixará uma trilha de sangue tentando.
Há um terceiro motivo para o momento deste ataque que deve estar arrancando surores frios na alta cúpula de Washington. O coração radical muçulmano sunita era disputado por duas forças. De um lado, a violência laica de Saddam Hussein, sempre generosa com o terror palestino; de outro, a Al Qaeda, cruel à última gota em sua leitura do Corão. Disputa, não há mais. E, se Saddam pareceu fraco, incapaz de defender-se - como Osama sempre disse que era o "porco infiel" -, o milionário terrorista mostra que ele é forte. Só agora, matou dezenas, todos infiéis, descontando-se os nove suicidas.
Os tempos estão bicudos e os EUA bem o sabem. A repentina troca de comando no Iraque, sai um militar, entra um civil, é uma resposta à crescente onda xiita que toma a antiga Mesopotâmia. Se os sunitas já não têm Saddam, a maioria xiita vai às ruas com gozo. Da última vez que se viu tantos turbantes negros e mantos cinzas assim, o aitatolá Kohmeini estava para assumir o poder no que deixou de ser Pérsia e virou Irã. O momento é diferente e ao próprio Irã não interessa uma guinada radical xiita no país vizinho. Afinal, eles mesmos estão a procura de reformas dentro de casa. Mas a situação toda passa ao largo da tranqüilidade. A válvula quebrou e os anseios sufocados da maioria iraquiana saem pelas ruas qual balão desgovernado.
De volta à Arábia Saudita. O país, maior reserva de petróleo do mundo, é fruto da desastrada política imperialista britânica do pós Primeira Guerra. Naquele tempo, várias tribos árabes disputavam entre si o poder do território, acéfalo perante o colapso do Império Otomano. A Revolta Árabe, insuflada pelo oficial britânico T. E. Lawrence, está contada parcialmente no filme clássico de 1962, onde Peter O'Toole interpreta o Lawrence da Arábia.
O filme é competente em mostrar o esfacelamento das várias tribos e suas mútuas desconfianças. No filme, no entanto, só o lado mais cosmopolita dos árabes é mostrado, no príncipe Feisal de Alec Guinness, um homem em seu tempo sofisticado num mundo nômade. Filho do grão-shariff Hussein, nobre até a última ponta do cabelo, descendente direto do Profeta Maomé. Nas promessas britânicas não cumpridas, os hashemitas - Feisal e seu irmão Abdullah - governariam Mesopotâmia e Jordânia respectivamente, e ao pai Hussein caberiam Síria e Arábia. O atual rei Abdullah da Jordânia é bisneto do grão-sharif, sobrinho-neto do personagem de Alec Guinness.
O lado que o cinema não mostrou é outra facção árabe, o clã de Ibn Saud. Nunca foi fácil a negociação entre britânicos e os hashemitas, pois estes não topavam tudo que lhes era oferecido, recusando o papel de simples marionetes e tinham um projeto próprio de unificação dum grande país árabe sob seu comando e sem espaço para um Estado judaico.
Em seu livro The rise, corruption and coming fall of the House of Saud - Ascenção, corrupção e futura queda da Casa de Saud - o jornalista palestino Said Aburish descreve Ibn Saud como um líder tribal semi-analfabeto e cruel - maltratava, por vezes matava com requintes, não apenas os inimigos como também seus escravos, parentes e mesmo suas mulheres. Mas quando os hashemitas entraram em choque com os sauditas, o Império Britânico municiou Saud com dinheiro e equipamento. O Império o via como melhor opção para impedir a grande unificação árabe que não lhe interessava politicamente - seriam por demais fortes. Conseguiu, e assim se fez o Oriente Médio. Os hashemitas terminaram sem a Síria e, em meados dos anos 1950, também sem o Iraque. A Casa de Saud continua até hoje com o poder na Arábia Saudita, que leva seu nome. A família real é composta por 6.000 pessoas atualmente.
E a Arábia Saudita que Ibn Saud fundou segue a interpretação do Islã que apenas sua tribo seguia: aquela fundada por Mohammed al-Wahhab em meados do século 18, mais ou menos na época em que as revoluções iluministas tomavam o poder nos EUA e na França. Para al-Wahhab, o Islã puro era aquele tal qual praticado por Maomé e quaisquer intepretações das leis posteriores não eram adequações ao tempo ou às mudanças, mas mutilações da religião. De seu nome, wahabismo.
Seguindo estes preceitos, ladrões perdem as mãos na Arábia Saudita, a tortura é legal, pessoas somem no meio da noite. Do ponto de vista humanitário, não diferente de como era o regime de Saddam Hussein. A Casa de Saud é intimamente ligada ao clero e é o clero que lhe garante a legitimidade. Mas, como qualquer ditadura, é impopular. O último levante contra o regime ocorreu em 1999, na cidade de Buraydah, com 150.000 habitantes. Demorou dias para ser esmagado.
Osama bin Laden é herdeiro de uma das famílias mais poderosas do lugar, cuja fortuna foi erguida prestando favores à família real. Lá dentro, seu movimento tem apoio em todos os estratos da sociedade, do povão à própria família real.
E a partir desta semana, acaba de lembrar a todos que não só continua vivo como também que a balança de relações no Oriente Médio está instável como há muito não se via. Fruto, ainda, da desastrada política que seguiu-se à Primeira Guerra.
Domingo, Maio 11, 2003
Quarta-feira, Maio 07, 2003
IRAQUIANOS PROTESTAM CONTRA CONTROLE DOS EUA E REIVINDICAM O PODER
Os Estados Unidos iniciaram no sul do Iraque, uma etapa crucial para o sucesso da intervenção militar no país - considerada por muitos mais espinhosa que a própria guerra para derrubar o regime de Saddam Hussein. Em uma base militar improvisada nos arredores de Nassiria, os militares americanos comandaram a primeira reunião sobre a formação do futuro governo do país.
Segundo as agências de notícias internacionais, o saldo do encontro incluiu vários protestos e críticas ao controle americano sobre o país no pós-guerra e uma reinvindicação aberta dos grupos que se opunham a Saddam por um regime democrático controlado por civis no Iraque. Os iraquianos concordaram em aprovar uma lista com treze pontos fundamentais para a criação do novo governo.
A relação de metas inclui a necessidade de dissolver o partido Baath, que apoiava Saddam, adotar princípios democráticos e colocar em prática a igualdade entre os diferentes grupos e etnias que formam o Iraque. A questão em que não houve concordância foi a separação entre religião e o novo Estado iraquiano - curdos, muçulmanos sunitas e muçulmanos xiitas ainda não entraram em acordo.
"Vamos pressionar por uma administração civil iraquiana, não importa o que os americanos digam", disse Mowaffak al-Rubaie, médico e ativista da oposição iraquiana, na reunião. "A administração de Garner não é aceitável", completou ele, em referência ao controle exercido por Jay Garner, o general aposentado que foi nomeado o governador do Iraque nessa fase de transição de governo.
De acordo com al-Rubaie, os EUA querem colocar um americano como chefe de cada ministério, com os dez subordinados também americanos. A cúpula dos ministérios teria ainda também oito iraquianos, mas o comando seria sempre americano. No fim do encontro, as duas partes marcaram outra reunião, dentro de dez dias. Muitos iraquianos mostraram insatisfação com o resultado do primeiro ato.
ORGANIZAÇÃO - Membros de grupos de oposição a Saddam que viviam exilados foram levados de avião até a base, enquanto os líderes tribais e religiosos de dentro do país foram deslocados pelos soldados americanos. Embora um consenso entre os diferentes grupos e etnias pareça um objetivo distante, o plano dos americanos é criar um embrião para o futuro governo independente iraquiano.
Logo nesta terça foi possível ver como a tarefa será difícil. Os xiitas, 60% da população, estão divididos e, em grande parte, hostis aos americanos. O principal grupo político e paramilitar da etnia, o Conselho Supremo para Revolução Islâmica no Iraque, que tem 15.000 combatentes e sede no Irã, decidiu boicotar a reunião em razão do temor de que seja imposto um governo pró-americano.
Horas antes do início da reunião, cerca de 20.000 iraquianos, em sua maioria xiitas, fizeram a primeira passeata de oposição política em décadas no país. O coro dominante era bem claro: "sim à liberdade, sim ao Islamismo, não aos Estados Unidos, não a Saddam!'' O líder preferido dos EUA, o iraquiano exilado, Ahmad Chalabi, não compareceu - mandou um representante ao encontro de terça.
Segunda-feira, Maio 05, 2003
Domingo, Maio 04, 2003
UM CONTO DE PRAGMATISMO FANTÁSTICO
Será um sintoma de que a expansão do império norte-americano já começou a fazer do mundo uma gigantesca América Latina? O fato é que, depois da ocupação norte-americana do Iraque, o debate internacional ganhou contornos de realismo fantástico.
A Casa Branca propôs à ONU o fim completo e definitivo do embargo ao comércio iraquiano, já que o regime contra o qual foi decretado não existe. A França diz assumir uma postura "pragmática" e "conciliatória" e propõe suspender provisoriamente as "sanções civis" e manter o programa de troca de petróleo por alimentos ¿ até que os inspetores da ONU possam certificar-se de que o Iraque não dispõe de armas de destruição em massa. Já a Rússia quer manter todo o bloqueio até que essa condição seja cumprida.
Que Iraque? Para começar, que armas? O inspetor Hans Blix já desnudou em público o imperador, ao declarar oficial e explicitamente que os serviços de inteligência dos EUA e Reino Unido usaram documentos falsos para envolver o Iraque na produção de armas nucleares.
Nem George W. Bush se preocupa mais em fingir que acredita nas tais armas. Há dois meses, Colin Powell, ao detalhar à ONU os locais nos quais estariam escondidas, garantia que havia um sério risco de que caíssem nas mãos de terroristas da Al-Qaeda, lembram-se? Se existissem, poderiam estar a ser levadas para fora do Iraque em meio ao caos da ocupação.
Dois dias depois da queda de Bagdá, porém, Donald Rumsfeld disse, com muita tranqüilidade, que "se houver um local suspeito de armas de destruição em massa em uma área que ocupemos e se as pessoas tiverem tempo, vão dar uma olhada nisso". Já não havia pressa.
Passadas duas semanas, a Casa Branca mandou dizer que "confiará em documentos e testemunhos de iraquianos individuais para reconstituir o escopo, a organização e as metas" do suposto programa de armas químicas e biológicas. Tradução: senta, que lá vem história.
É preciso ler atentamente nas entrelinhas para entender o que se passa. Desde que não haja mais um Iraque independente, o que Bush exige é uma carta-branca que lhe dê legitimidade para comercializar o petróleo do país conquistado e distribuir concessões e mercados às transnacionais anglo-americanas.
Mas Jacques Chirac ¿ agora com respaldo da União Européia, que aprovou resolução pedindo que as Nações Unidas assumam a transição no Iraque ¿ e Vladimir Putin, que também tem poder de veto sobre o Conselho de Segurança da ONU, não estão dispostos a endossar o cheque sem que os seus recebam sua parte. Ou todos se locupletam, ou restaure-se a moralidade.
Quem terá autoridade para fechar contratos de exportação de petróleo e importar produtos com as divisas ganhas? Se as sanções forem simplesmente extintas, será o vice-rei Jay Garner, sem qualquer restrição.
Se forem mantidas ou suspensas "provisoriamente", a ONU terá algo a dizer a respeito, até que a nova situação seja negociada de maneira mais civilizada ¿ e esperemos, de forma a assegurar os direitos do povo iraquiano sobre suas riquezas naturais e seu destino. Por mais que o pretexto seja fantasioso e deixe para Hans Blix a estranha tarefa de voltar a procurar o que ele e todos sabem há muito que não existe.
Segunda-feira, Agosto 14, 2006
EFEITO BUSH
VERGONHA
Abraçada à mãe, Sarah morreu horas antes do fim da guerra em Beirute.
BEIRUTE, 14 ago (AFP) - Sarah, de 10 anos, jamais saberá quem venceu a guerra, se Israel ou o Hezbollah, pois morreu abraçada a sua mãe depois que as bombas israelenses as sepultaram sob os escombros do prédio onde se refugiaram, em um subúrbio ao sul de Beirute.
Os restos mortais das vítimas das últimas horas de batalha jaziam nesta segunda-feira no necrotério da capital do Líbano.
"Seu rosto estava ensangüentado, mas intacto. Seu corpo, no entanto, está destroçado, e suas pernas não passam de uma massa de carne. Deixei a fita vermelha que prendia seus cabelos", conta Mahmud Mekdad, um dos funcionários do necrotério.
"Sua mãe, Asmahane, está no caixão ao lado do dela. Quando foram retiradas dos destroços, a menina abraçava a mãe que tentou visivelmente protegê-la. As equipes de socorro tiveram que afastá-las", acrescentou.
"Os corpos foram trazidos para cá na noite de domingo e até agora ninguém veio reclamá-los. Talvez não haja sobreviventes nesta família", informou o médico legista Hussein Medkad, que passou os atestados de óbitos na ausência de familiares.
Sarah e sua mãe morreram soterradas quando aviões israelenses bombardearam na tarde de domingo um prédio do bairro Rueiss, periferia de Beirute.
"Não há dúvidas de que existem outras famílias sob os escombros. É pouco provável que sejam encontrados sobreviventes. Vamos usar cães adestrados para tentar localizar os corpos", disse um socorrista no local da tragédia, onde já foram retirados dez corpos. Inaam Kaacheemelli e sua filha Mariam observam as idas e vindas das escavadeiras que erguem blocos de concreto armado.
Mariam, de 10 anos, vive a 200 metros dos imóveis destruídos. "Ontem, ao meio-dia, eu estava brincando com Sarah e o irmão dela, Ibrahim. Onde eles estão?", pergunta a menina.
Sua mãe implora aos jornalistas: "Por favor, não mostrem para minha filha a foto do corpo de Sarah. Ela ainda não sabe", explicou.
Mais de mil civis morreram em 33 dias de bombardeios contra o Líbano. Segundo dados das Nações Unidas, quase um terço das vítimas é de crianças.
Quinta-feira, Julho 29, 2004
E ai galera... logo esse blogger será ativado novamente.
Só falta mais um pouco de tempo
Sexta-feira, Julho 11, 2003
A indiferença é o alimento preferido dos monstros que nos assolam, comprometendo nosso futuro com a negligência do presente e, até o passado, cuja memória sucumbe na distorção dos mais caros e nobres valores humanos. A indiferença como opção de defesa contra as indignidades é na realidade, a melhor defesa dos indignos.
Segunda-feira, Junho 09, 2003
BUSH FILHO DA PUTA
Sábado, Junho 07, 2003
ACORDO DE ALCÂNTARA DEVE SER RETIRADO DO CONGRESSO
O Governo pretende retirar do Congresso Nacional o Acordo que concede aos Estados Unidos o direito de uso da base militar aeroespacial de Alcântara, no Maranhão. O ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, deu esta informação à Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional, em audiência pública realizada ontem.
Os Ministérios da Defesa, da Ciência e Tecnologia e das Relações Exteriores já elaboraram uma Exposição de Motivos para justificar a retirada, que está sendo analisada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
INFORMAÇÕES
Vários deputados comemoram a decisão. Antônio Carlos Pannunzio (PSDB-SP) manifestou apoio, ressaltando que um eventual Acordo deste tipo com os Estados Unidos Brasil deveria ser semelhante aos firmados com aquele país com a Rússia, a China, e a Ucrânia. Para Pannunzio, o Acordo precisa ser alterado para beneficiar o Brasil. "Por exemplo, precisamos saber que tipo de carga é enviada pelo satélite lançado da base, se existe radioatividade, se existe componente passível de trazer prejuízos ao ambiente ou à saúde humana. Informações como estas são necessárias para resguardar interesse nacional", disse.
SOBERANIA
O deputado Ary Vanazzi (PT-RS), um dos autores da indicação encaminhada na semana passada ao Governo para retirar o Acordo da pauta, disse que o assunto precisa ser muito mais discutido, do ponto de vista da soberania nacional, já que os norte-americanos tem o hábito de agir de forma unilateral.
"A iniciativa do governo norte-americano de invadir o Iraque, desrespeitando os organismos internacionais, e a própria comunidade internacional, mostra ser urgente retirar o Acordo. A independência do Brasil é fundamental. A gente precisa pensar, projetar a nossa visão das pesquisas espaciais, e administrar a base de Alcântara a partir daí. Não pode haver esse Acordo, não podemos entregar a Base de Alcântara ao governo americano, em função do seu autoritarismo".
A indicação foi assinada também pelos deputados Vignatti (PT-SC) e Francisca Trindade (PT-PI). Para Vanazzi, a indicação veio no momento certo. Hoje, Vanazzi está no Maranhão para discutir a Base de Alcântara. Uma das principais preocupações é com a situação das comunidades remanescentes de quilombos, gente que morava na região antes da construção da Base.
BRASIL ACIMA DE TUDO
Sábado, Maio 17, 2003
TERRA DA LIBERDADE, LAR DO BRAVO!
Texto e arte de J. J. Marreiro
Dia 17 de março de 2003. Cenário: a Casa Branca. Mais precisamente o Salão de Reuniões. Aqui, várias vezes, foram tomadas decisões que orientaram o rumo da América e do mundo. Além do próprio presidente e seu vice, estão presentes os conselheiros militares, e os diretores da CIA e da Shield.
Com um ar de tranqüilidade que lhe é peculiar, o presidente George W. Bush dirige a palavra ao coronel Nick Fury:
- Peça a ele para entrar, Fury.
Espalhando fumaça pela sala, o diretor da Shield caminha até a porta, dá uma ordem a um soldado que aguardava do lado de fora e, em menos de um minuto, eles ouvem se aproximar os passos mais firmes e decididos que já puderam perceber. O homem envolto num uniforme azul estrelado evoca respeito de todos os olhares, o escudo de metal reluzente alçado em suas costas não é menos imponente.
- Senhor presidente! - Como um soldado pronto a acatar quaisquer ordens, ele assume a posição de sentido ante a mesa de reuniões onde Fury torna a se acomodar, junto dos demais líderes.
- Você está a par dos últimos acontecimentos?
- Se está se referindo às recentes hostilidades com relação ao Oriente Médio, sim.
- Nós temos provas de que ele está ocultando dezenas de fábricas de armas de destruição em massa.
- São as mesmas provas que o senhor apresentou ao Congresso?
- Ham-Ham! - Fury pigarreia alto ao fundo, alertando o homem por trás da máscara de que está entrando em terreno perigoso.
- Ora, hã... Não, não, não, aquilo foi um pequeno lapso de troca de documentos. - Bush tenta dissimular e continua - Temos outras fontes. Fotos de satélites e informes de um grupo avançado da Shield.
Os gigantescos olhos azuis dirigem-se lentamente para Fury, perscrutando-lhe os gestos e lendo as mensagens subliminares de cada poro de seu rosto. Uma gota de suor próxima ao tapa-olho confirma o que ele já suspeitava. "Eles estão procurando uma desculpa".
- Aquelas pessoas, você sabe, mulheres, crianças... gente idosa, ignorante. Todos estão seduzidos pelo discurso dele. Aquilo é uma ditadura das mais cruéis. Nós estamos analisando uma intervenção para libertar aquelas pessoas. - Enquanto fala, Bush levanta-se e anda pela sala, aproximando-se do Capitão.
- O que pensa o resto do mundo? - Sua voz, mesmo em tom ameno, soa firme como um trovão.
- Estão cegos! A Inglaterra está conosco nesta empreitada, mas o restante da Europa e dos outros continentes não se importa com aquelas pobres pessoas.
- O que diz a ONU?
- Ora, filho! Você sabe que a ONU somos nós.
- O vocês que querem de mim?
- Nós precisamos que seja nosso símbolo! Queremos que lute mais uma vez em favor da liberdade e leve uma imagem de otimismo e segurança para o front! Quando entrarmos em Bagdá, quero que esteja à frente de nossas tropas alardeando para o mundo como a América lida com ditaduras.
Fury apaga o charuto na mesa, mas ninguém percebe. A tensão naquela sala seria capaz de provocar a fissão de um átomo. Ele sabe quem é o homem por trás da máscara, sabe como ele pensa, sabe quais suas prioridades. De fato, desde o início foi contra trazê-lo aqui, mas este novo presidente é menos flexível que o pai, e certamente menos inteligente, se dirige a palavra ao Capitão América desta forma.
Mas, o que ele pode fazer?! Há forças maiores por trás disso tudo, a indústria armamentista, os figurões do petróleo, o consenso de Washington... e não podemos esquecer a "conspiração". Ele quer a guerra, mas não só para entrar nos livros de história. Ele a quer para pacificar a economia da América, criar uma cortina de fumaça sobre todos os problemas que permeiam sua administração. E ele é mais ingênuo do que pensa, se acha que o Capitão América não sabe disso.
- O senhor quer que eu conduza suas tropas para a vitória?
- Sim! Quero que faça história mais uma vez!!!
- Sinto muito, senhor presidente, mas minha resposta é não. - Fury ainda se impressiona com a naturalidade como ele faz essas coisas. Deve ser fácil pra um cara que está por aí desde a Segunda Grande Guerra.
- Desculpe. Acho que não ouvi direito. - Cinismo. Talvez fosse a atitude menos recomendada neste momento - Você vai desacatar uma ordem minha?! Devo lembrá-lo para quem você trabalha, rapaz?! - Oh-Oh! Ele agora está cruzando a linha. Fury esfrega a mão lentamente ao longo do rosto. Eu não acredito! Ninguém disse pra ele o que o Capitão fez com o Reagan quando soube do caso "Irã-contras"?
- Senhor presidente, estamos falando de um país que tem suas leis e sua soberania assegurada pela Carta das Nações. Quer gostemos ou não, aquele território é a casa de outras pessoas, não podemos entrar lá e dizer-lhes o que devem fazer. O líder deles é um tipo fanático e uma ameaça ao mundo livre, mas que tipo de homens seremos nós se invadirmos o seu território sob o pretexto de fazer justiça... O petróleo deles não vale a vergonha de uma guerra.
- Você está passando dos limites, rapaz! - Com a voz trêmula de raiva e visivelmente contrariado, o presidente assume uma coloração avermelhada.
- Calma, senhor presidente. - O secretário geral tenta acalmar os ânimos - Capitão, por favor, seja razoável.
- Razoável?! Você achou o Panamá razoável, a Coréia razoável, o Vietnã?!
- Agora, a voz do Capitão passa a ribombar pelo salão oval, atraindo respeito e atenção. - Eu não concordei com nenhuma dessas intervenções. Verifique os arquivos! O Capitão América só participou de batalhas justas! Já vi sangue inocente demais derramado por ódio e ganância!
- Você serve a este País! (gasp!) Você (gasp!) serve a este País! - O presidente se apóia na mesa atrás de si, com a mão sobre o peito. A respiração parece difícil. Os conselheiros se aproximam para auxiliá-lo. O homem vestido com as cores de uma bandeira dá as costas lentamente e dirige-se à porta. O silêncio toma conta do recinto.
- Gostaria de lembrá-lo de mais uma coisa, sr. presidente: É bem verdade que trabalho para vocês, mas, quero que fique claro: antes de tudo, sirvo aos ideais de justiça e liberdade! - Os passos fortes caminham na direção da saída. Uma mão de ferro gira o trinco da porta e lentamente abre passagem. Antes de sair, seus olhos cruzam os olhos de todos dentro daquela sala, parecendo enxergar as almas e os segredos mais profundos de cada um. Parando na face trêmula do presidente: - Sim, senhor presidente, eu sirvo a América... mas, acima de tudo, eu sirvo ao sonho!
A porta se fecha lentamente atrás do gigante azulado. A confusão retorna, todos tentam auxiliar o presidente que, ao que parece, está diante de um ataque cardíaco.
Fury esboça um sorriso por trás da fumaça do charuto que acaba de acender e pensa: "É... Sempre achei tremendamente ridícula e cafona essa roupa dele, mas uma coisa é certa. Por trás dessa breguice toda... tem um cara com cujones! Talvez ainda haja esperança para a América".
20 de março: Estados Unidos e Inglaterra vão a guerra contra o Iraque... sem o Capitão América.
Sexta-feira, Maio 16, 2003
ALCÂNTARA DE PRESENTE
O mais antigo e legítimo princípio do exercício da soberania dos povos é a defesa da integridade do seu território. Princípio que lhe garante ação soberana inquestionável para desenvolvê-lo de maneira sustentável e oferecê-lo às gerações futuras.
O Governo Fernando Henrique Cardoso feriu este princípio ao acatar as inaceitáveis condições impostas pelo governo dos Estados Unidos da América, para utilização da Base de Alcântara, no Maranhão.
O Acordo de Salvaguardas Tecnológicas, para utilização daquela base de lançamentos de foguetes, assinado entre os dois governos em abril de 2000, constitui-se numa peça que envergonha a diplomacia brasileira e um insulto à nossa soberania e inteligência.
É inaceitável para um país soberano, sob qualquer ponto de vista, admitir que dentro da área da Base de Alcântara, a circulação de pessoas e equipamentos seja privativa da autoridade do governo dos Estados Unidos.
A forma do acordo deixa dúvidas e suspeitas sobre as reais motivações geopolíticas e militares, do governo dos Estados Unidos ao exigir autonomia total em nosso território, justamente na entrada da Amazônia.
Além disso, o Acordo coloca em risco as comunidades de remanescentes
de Quilombos que há mais de duzentos anos vivem na região.
E sepulta, sorrateiramente, a possibilidade da Aeronáutica brasileira desenvolver um programa espacial autônomo e soberano.
O Acordo depende agora de aprovação do Congresso Nacional.
Nós, cidadãos e cidadãs atentos(as) aos princípios e a defesa da soberania nacional e conscientes do exercício da soberania popular assegurada pela Constituição da
República, nos manifestamos, exigindo:
1. Que o Congresso Nacional rejeite o malfadado acordo.
2. Que se busque uma solução justa e duradoura para que todos os brasileiros que vivem no município de Alcântara tenham seus direitos assegurados e possam trabalhar e melhorar suas condições de vida.
3. Que seja assegurado o direito de nosso povo à investigação, à pesquisa, ao acesso e desenvolvimento de novas tecnologias pacíficas de exploração espacial.
Estaremos sempre dispostos a lutar contra os que, atendendo a interesses de grupos nacionais e estrangeiros, buscam fragilizar o primado da nossa soberania sobre o território nacional. Lutaremos, sempre e incansavelmente, por um Brasil socialmente justo, soberano e democrático.
ISSO SEM CONTA A VERGONHA DA ALCA
Quarta-feira, Maio 14, 2003
OSAMA VIVE
O atentado de segunda-feira à noite em Ryadh, capital saudita, não podia ter vindo em pior hora para o governo norte-americano. Tendo causado pelo menos 29 mortes e mais de uma centena de feridos, é a pior ação da Al Qaeda desde o 11 de setembro. E, com ele, Osama bin Laden põe George W. Bush num xeque simbólico.
Os números de vítimas foram conflitantes durante toda a terça-feira. O vice-presidente dos EUA, Dick Cheney, chegou a declarar num discurso que eram já 91 os mortos. O governo saudita manteve a conta de 29 mortos e, no fim do dia, os EUA recuaram. Cheney alegou que estava repetindo o que havia lido na imprensa, embora seus assessores não soubessem dizer onde exatamente este número tão elevado teria aparecido inicialmente.
Fosse 91, seria o segundo maior ataque terrorista da Al Qaeda. Mesmo não sendo, deixa o governo Bush numa situação delicadíssima. Em primeiro lugar, porque foi algumas horas antes da chegada do Secretário de Estado Colin Powell à Arábia Saudita. Esperava-se que perante uma visita da terceira maior autoridade política dos EUA, a segurança estaria no ápice. Muito pelo contrário, e mais uma vez bin Laden mostra que consegue se infiltrar nos piores momentos.
Em segundo, porque a visita de Powell marcava o contra-ponto à guerra contra o Iraque. Primeiro bate, depois acaricia. Se feriu o orgulho árabe derrubando Saddam Hussein com facilidade, agora vinha o gesto de boa-vontade: 5.000 militares norte-americanos que viviam em bases no território saudita estavam com a passagem para casa comprada.
Quando bin Laden declarou sua guerra sangrenta aos EUA, essa era sua principal exigência. Que os militares norte-americanos deixassem o sacro-território saudita, onde estão as principais cidades muçulmanas: Meca e Medina.
Após a invasão do Kuwait pelo Iraque, no princípio dos anos 1990, bin Laden ofereceu à Casa Real de Saud proteção de seus guerrilheiros, treinados a ferro e fogo na Guerra do Afeganistão, contra um possível ataque de Saddam. O governo do país árabe preferiu a proteção dos EUA e seus favores, provocando uma crise interna que culminou com bin Laden expulso de seu próprio país: perdeu a cidadania em 1994.
De repente, virou tudo uma questão de honra. Aos EUA, retirar os soldados era curvar-se perante as ameaças de bin Laden. Ao governo saudita, pedir a retirada era reconhecer o poder interno do terrorista milionário. A queda de Saddam, portanto, virou a desculpa perfeita. Já que o risco de invasão não existe mais, o grave foco de tensões poderia ser eliminado. Coisa importantíssima essa viagem de Colin Powell, pois.
E Osama bin Laden arranjou um jeito de acirrar o jogo. Até porque o jogo já é outro desde o 11 de setembro. Ao longo da última década, de um nacionalista radical, ele tornou-se símbolo das violentas frustrações de todo o povo muçulmano. Não se trata mais, como um dia foi, de buscar uma aliança com a realeza saudita na construção de um país profundamente religioso e livre de infiéis. Agora, bin Laden quer poder. Primeiro, poder na Arábia Saudita; depois, poder em todo o mundo muçulmano. Dificilmente terá condições de conquistar tanto. Mas deixará uma trilha de sangue tentando.
Há um terceiro motivo para o momento deste ataque que deve estar arrancando surores frios na alta cúpula de Washington. O coração radical muçulmano sunita era disputado por duas forças. De um lado, a violência laica de Saddam Hussein, sempre generosa com o terror palestino; de outro, a Al Qaeda, cruel à última gota em sua leitura do Corão. Disputa, não há mais. E, se Saddam pareceu fraco, incapaz de defender-se - como Osama sempre disse que era o "porco infiel" -, o milionário terrorista mostra que ele é forte. Só agora, matou dezenas, todos infiéis, descontando-se os nove suicidas.
Os tempos estão bicudos e os EUA bem o sabem. A repentina troca de comando no Iraque, sai um militar, entra um civil, é uma resposta à crescente onda xiita que toma a antiga Mesopotâmia. Se os sunitas já não têm Saddam, a maioria xiita vai às ruas com gozo. Da última vez que se viu tantos turbantes negros e mantos cinzas assim, o aitatolá Kohmeini estava para assumir o poder no que deixou de ser Pérsia e virou Irã. O momento é diferente e ao próprio Irã não interessa uma guinada radical xiita no país vizinho. Afinal, eles mesmos estão a procura de reformas dentro de casa. Mas a situação toda passa ao largo da tranqüilidade. A válvula quebrou e os anseios sufocados da maioria iraquiana saem pelas ruas qual balão desgovernado.
De volta à Arábia Saudita. O país, maior reserva de petróleo do mundo, é fruto da desastrada política imperialista britânica do pós Primeira Guerra. Naquele tempo, várias tribos árabes disputavam entre si o poder do território, acéfalo perante o colapso do Império Otomano. A Revolta Árabe, insuflada pelo oficial britânico T. E. Lawrence, está contada parcialmente no filme clássico de 1962, onde Peter O'Toole interpreta o Lawrence da Arábia.
O filme é competente em mostrar o esfacelamento das várias tribos e suas mútuas desconfianças. No filme, no entanto, só o lado mais cosmopolita dos árabes é mostrado, no príncipe Feisal de Alec Guinness, um homem em seu tempo sofisticado num mundo nômade. Filho do grão-shariff Hussein, nobre até a última ponta do cabelo, descendente direto do Profeta Maomé. Nas promessas britânicas não cumpridas, os hashemitas - Feisal e seu irmão Abdullah - governariam Mesopotâmia e Jordânia respectivamente, e ao pai Hussein caberiam Síria e Arábia. O atual rei Abdullah da Jordânia é bisneto do grão-sharif, sobrinho-neto do personagem de Alec Guinness.
O lado que o cinema não mostrou é outra facção árabe, o clã de Ibn Saud. Nunca foi fácil a negociação entre britânicos e os hashemitas, pois estes não topavam tudo que lhes era oferecido, recusando o papel de simples marionetes e tinham um projeto próprio de unificação dum grande país árabe sob seu comando e sem espaço para um Estado judaico.
Em seu livro The rise, corruption and coming fall of the House of Saud - Ascenção, corrupção e futura queda da Casa de Saud - o jornalista palestino Said Aburish descreve Ibn Saud como um líder tribal semi-analfabeto e cruel - maltratava, por vezes matava com requintes, não apenas os inimigos como também seus escravos, parentes e mesmo suas mulheres. Mas quando os hashemitas entraram em choque com os sauditas, o Império Britânico municiou Saud com dinheiro e equipamento. O Império o via como melhor opção para impedir a grande unificação árabe que não lhe interessava politicamente - seriam por demais fortes. Conseguiu, e assim se fez o Oriente Médio. Os hashemitas terminaram sem a Síria e, em meados dos anos 1950, também sem o Iraque. A Casa de Saud continua até hoje com o poder na Arábia Saudita, que leva seu nome. A família real é composta por 6.000 pessoas atualmente.
E a Arábia Saudita que Ibn Saud fundou segue a interpretação do Islã que apenas sua tribo seguia: aquela fundada por Mohammed al-Wahhab em meados do século 18, mais ou menos na época em que as revoluções iluministas tomavam o poder nos EUA e na França. Para al-Wahhab, o Islã puro era aquele tal qual praticado por Maomé e quaisquer intepretações das leis posteriores não eram adequações ao tempo ou às mudanças, mas mutilações da religião. De seu nome, wahabismo.
Seguindo estes preceitos, ladrões perdem as mãos na Arábia Saudita, a tortura é legal, pessoas somem no meio da noite. Do ponto de vista humanitário, não diferente de como era o regime de Saddam Hussein. A Casa de Saud é intimamente ligada ao clero e é o clero que lhe garante a legitimidade. Mas, como qualquer ditadura, é impopular. O último levante contra o regime ocorreu em 1999, na cidade de Buraydah, com 150.000 habitantes. Demorou dias para ser esmagado.
Osama bin Laden é herdeiro de uma das famílias mais poderosas do lugar, cuja fortuna foi erguida prestando favores à família real. Lá dentro, seu movimento tem apoio em todos os estratos da sociedade, do povão à própria família real.
E a partir desta semana, acaba de lembrar a todos que não só continua vivo como também que a balança de relações no Oriente Médio está instável como há muito não se via. Fruto, ainda, da desastrada política que seguiu-se à Primeira Guerra.
Domingo, Maio 11, 2003
Quarta-feira, Maio 07, 2003
IRAQUIANOS PROTESTAM CONTRA CONTROLE DOS EUA E REIVINDICAM O PODER
Os Estados Unidos iniciaram no sul do Iraque, uma etapa crucial para o sucesso da intervenção militar no país - considerada por muitos mais espinhosa que a própria guerra para derrubar o regime de Saddam Hussein. Em uma base militar improvisada nos arredores de Nassiria, os militares americanos comandaram a primeira reunião sobre a formação do futuro governo do país.
Segundo as agências de notícias internacionais, o saldo do encontro incluiu vários protestos e críticas ao controle americano sobre o país no pós-guerra e uma reinvindicação aberta dos grupos que se opunham a Saddam por um regime democrático controlado por civis no Iraque. Os iraquianos concordaram em aprovar uma lista com treze pontos fundamentais para a criação do novo governo.
A relação de metas inclui a necessidade de dissolver o partido Baath, que apoiava Saddam, adotar princípios democráticos e colocar em prática a igualdade entre os diferentes grupos e etnias que formam o Iraque. A questão em que não houve concordância foi a separação entre religião e o novo Estado iraquiano - curdos, muçulmanos sunitas e muçulmanos xiitas ainda não entraram em acordo.
"Vamos pressionar por uma administração civil iraquiana, não importa o que os americanos digam", disse Mowaffak al-Rubaie, médico e ativista da oposição iraquiana, na reunião. "A administração de Garner não é aceitável", completou ele, em referência ao controle exercido por Jay Garner, o general aposentado que foi nomeado o governador do Iraque nessa fase de transição de governo.
De acordo com al-Rubaie, os EUA querem colocar um americano como chefe de cada ministério, com os dez subordinados também americanos. A cúpula dos ministérios teria ainda também oito iraquianos, mas o comando seria sempre americano. No fim do encontro, as duas partes marcaram outra reunião, dentro de dez dias. Muitos iraquianos mostraram insatisfação com o resultado do primeiro ato.
ORGANIZAÇÃO - Membros de grupos de oposição a Saddam que viviam exilados foram levados de avião até a base, enquanto os líderes tribais e religiosos de dentro do país foram deslocados pelos soldados americanos. Embora um consenso entre os diferentes grupos e etnias pareça um objetivo distante, o plano dos americanos é criar um embrião para o futuro governo independente iraquiano.
Logo nesta terça foi possível ver como a tarefa será difícil. Os xiitas, 60% da população, estão divididos e, em grande parte, hostis aos americanos. O principal grupo político e paramilitar da etnia, o Conselho Supremo para Revolução Islâmica no Iraque, que tem 15.000 combatentes e sede no Irã, decidiu boicotar a reunião em razão do temor de que seja imposto um governo pró-americano.
Horas antes do início da reunião, cerca de 20.000 iraquianos, em sua maioria xiitas, fizeram a primeira passeata de oposição política em décadas no país. O coro dominante era bem claro: "sim à liberdade, sim ao Islamismo, não aos Estados Unidos, não a Saddam!'' O líder preferido dos EUA, o iraquiano exilado, Ahmad Chalabi, não compareceu - mandou um representante ao encontro de terça.
Segunda-feira, Maio 05, 2003
Domingo, Maio 04, 2003
UM CONTO DE PRAGMATISMO FANTÁSTICO
Será um sintoma de que a expansão do império norte-americano já começou a fazer do mundo uma gigantesca América Latina? O fato é que, depois da ocupação norte-americana do Iraque, o debate internacional ganhou contornos de realismo fantástico.
A Casa Branca propôs à ONU o fim completo e definitivo do embargo ao comércio iraquiano, já que o regime contra o qual foi decretado não existe. A França diz assumir uma postura "pragmática" e "conciliatória" e propõe suspender provisoriamente as "sanções civis" e manter o programa de troca de petróleo por alimentos ¿ até que os inspetores da ONU possam certificar-se de que o Iraque não dispõe de armas de destruição em massa. Já a Rússia quer manter todo o bloqueio até que essa condição seja cumprida.
Que Iraque? Para começar, que armas? O inspetor Hans Blix já desnudou em público o imperador, ao declarar oficial e explicitamente que os serviços de inteligência dos EUA e Reino Unido usaram documentos falsos para envolver o Iraque na produção de armas nucleares.
Nem George W. Bush se preocupa mais em fingir que acredita nas tais armas. Há dois meses, Colin Powell, ao detalhar à ONU os locais nos quais estariam escondidas, garantia que havia um sério risco de que caíssem nas mãos de terroristas da Al-Qaeda, lembram-se? Se existissem, poderiam estar a ser levadas para fora do Iraque em meio ao caos da ocupação.
Dois dias depois da queda de Bagdá, porém, Donald Rumsfeld disse, com muita tranqüilidade, que "se houver um local suspeito de armas de destruição em massa em uma área que ocupemos e se as pessoas tiverem tempo, vão dar uma olhada nisso". Já não havia pressa.
Passadas duas semanas, a Casa Branca mandou dizer que "confiará em documentos e testemunhos de iraquianos individuais para reconstituir o escopo, a organização e as metas" do suposto programa de armas químicas e biológicas. Tradução: senta, que lá vem história.
É preciso ler atentamente nas entrelinhas para entender o que se passa. Desde que não haja mais um Iraque independente, o que Bush exige é uma carta-branca que lhe dê legitimidade para comercializar o petróleo do país conquistado e distribuir concessões e mercados às transnacionais anglo-americanas.
Mas Jacques Chirac ¿ agora com respaldo da União Européia, que aprovou resolução pedindo que as Nações Unidas assumam a transição no Iraque ¿ e Vladimir Putin, que também tem poder de veto sobre o Conselho de Segurança da ONU, não estão dispostos a endossar o cheque sem que os seus recebam sua parte. Ou todos se locupletam, ou restaure-se a moralidade.
Quem terá autoridade para fechar contratos de exportação de petróleo e importar produtos com as divisas ganhas? Se as sanções forem simplesmente extintas, será o vice-rei Jay Garner, sem qualquer restrição.
Se forem mantidas ou suspensas "provisoriamente", a ONU terá algo a dizer a respeito, até que a nova situação seja negociada de maneira mais civilizada ¿ e esperemos, de forma a assegurar os direitos do povo iraquiano sobre suas riquezas naturais e seu destino. Por mais que o pretexto seja fantasioso e deixe para Hans Blix a estranha tarefa de voltar a procurar o que ele e todos sabem há muito que não existe.